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sábado, 20 de março de 2010

A NOITE EM QUE AS MUSAS VIERAM

Domingo passado, dia 14 de março, marcou a passagem do Dia Nacional da Poesia. Quer dizer... algumas poucas pessoas lembraram da efeméride e decidiram render loas às Musas em um sarau realizado na véspera, sábado à noite, no Zarabatana Café, que fica ali junto ao Centro Municipal de Cultura Dr. Henrique Ordovás Filho. Recebi convite e decidi comparecer. Estávamos lá eu, minha esposa, os três poetas protagonistas do sarau (conduzido pelo poeta e escritor Uili Bergamin) e mais um punhado de umas vinte almas.
Em se tratando de poesia, certamente nenhum dos presentes esperaria detectar ali mais do que os pingados gatos contados que éramos. Aconchegava-nos, porém, não o equilíbrio numérico entre as cadeiras ocupadas e as vazias do ambiente, mas sim o calor dos versos recitados de poetas idos e presentes, a energia da atenção total voltada às palavras de quem se revezava ao microfone e a certeza de que os espaços vagos não eram vagos, e sim ocupados pelas Musas, que, sentíamos, davam os ares de suas graças ali entre nós.
Como bem disseram os poetas condutores do rito de homenagem, a Poesia é uma arte à qual se dedicam alguns espíritos obstinados que se renderam ao encanto proporcionado pelo universo ao qual ela escancara as portas. A permanência neste universo independe do reconhecimento público, das luzes da mídia, do retorno financeiro. Ser poeta, poetar, vivenciar a Poesia, são atitudes que impregnam a alma dessa gente e lhes conferem um sentido na existência difícil de ser explicado ou justificado. Apenas os frutos dessa opção de vida – os poemas – podem ser compartilhados, e é isso o que eles generosamente fazem, recebendo pouco mais do que nada em troca.
Cultivo uma inveja positiva aos poetas. Admiro-os e anseio por ter também algum percentual da entrega e da obstinação que os move. Vivem eles às voltas com a presença de Musas sussurrantes, que lhes proporcionam visões viscerais do mundo e da existência. Sabem transmutar o sofrimento de suas almas em arte, e a presenteiam dadivosamente ao mundo em forma de poemas, para quem quiser beber do bálsamo em que se transformam.
Não sou poeta, conheço de poesia muito pouco, leio raros poetas e permaneço sempre voltando aos mesmos. Mas me senti satisfeito por ter participado da singela homenagem ao universo da arte poética que teve lugar na noite de sábado aqui em Caxias do Sul. De volta ao lar, mais tarde, (re)li um pouco de poesia e renovei a alma, que ultimamente tem estado resignada aos castigos dos pensamentos práticos cotidianos. Em doses diárias, o consumo moderado de poesia tem poder revigorante e regenerativo. Recomendo. E torço para que nenhuma multinacional descubra isso e patenteie o uso, passando a vendê-la em frascos. Por enquanto, ela, a Poesia, permanece livre e ao alcance de todos. Aproveite.

                                                                                                                           Marcos Fernando Kirst
                                                                                             Publicado no Jornal Pioneiro em 19/03/10 

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