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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Palavra de quem entende

Acredito que todo autor (e isso varia de acordo com o talento de cada um) está, muitas vezes de uma maneira inconsciente, afetado pelo que poderíamos chamar "Síndrome do Demiurgo", noutros termos: está tomado pelo espírito do Criador Máximo, ou Deus, ou Yahvéh, ou Allah, como queiram, que no Gênesis, a par da Luz, lançou mão do Verbo para dar forma e existência a tudo quanto existe; em contraposição ao Nada que vigorava na Treva e no Silêncio absolutos. Então, salvaguardadas as devidas proporções, é o que o artista, no caso o escritor, anseia e pena por realizar no microcosmo de sua obra ficcional. Suas criaturas de "papel" devem, por sua vez, encarnar todos os dramas e exibir todas as facetas de seus modelos de carne e osso, e com o acréscimo ainda de dilucidar estes últimos. Na verdade, tudo isso no fundo revela - coisa comum à todos os homens (no artista talvez mais agudamente) - a angústia da impotência diante dos fatos inelutáveis da vida e da morte; e principalmente, a angústia que está no fracasso da comunicabilidade; da incapacidade, em graus diversos, de estabelecer um diálogo, franco, pleno e elevado, com aquilo tudo que acreditamos constituir a natureza e condição humana. 
 
Luis Narval
Escritor
Membro da Litteris Te Deum
 

Um comentário:

Tiago disse...

Muito legal esse texto do Narval...e acrescentaria que criar um texto, às vezes, é um processo doloroso (em dias menos inspirados) e ingrato (qdo somos incompreendidos ou compreendidos às avessas).
Grande abraço Uili!
Tiago Marcon