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segunda-feira, 24 de junho de 2013

Discurso de Luis Narval, por ocasião da entrega do Prêmio Vivita Cartier



Vivemos, como se sabe, cada vez mais num mundo de superficialidades, de preocupações tais que não são mais aquelas que dizem respeito ao autoconhecimento e ao conhecimento do outro. Uma época de triste estranhamento. Alguém, em outros tempos, já dissera: "Onde estiver seu tesouro, lá estará também seu coração". Portanto, a consideração do que consiste, em essência, esse "tesouro", no qual depositamos nossos melhores esforços e nossas maiores esperanças, é, por si só, muito reveladora, não apenas de nossas preferências ou ambições - que muitas vezes o meio social trata, sem que o percebamos, de moldar e de impingir como modelo a ser perseguido - mas é reveladora, como dizia, de nossa personalidade, e do quanto esta pode ser uma força transformadora, capaz de forjar sua própria Identidade e, a partir disso, criar seus próprios parâmetros de avaliação, escolhas, decisões, etcétera... Seu modo, enfim, particular de estar e interagir com o mundo.

A literatura, para muitos (e aqui ouso me incluir), se constitui nesse "tesouro", e é lá que devo procurar meu coração. Naturalmente, não é um território de fácil acesso, e, uma vez lá, não se possui garantia alguma de permanência ou mesmo de sobrevivência. Não é um asilo, como se costuma pensar, para almas contemplativas e sonhadoras, para espíritos apáticos e corpos desfibrados, ou mesmo um emprego vitalício e bem remunerado numa autarquia qualquer. É uma região de permanente embate, escaramuças e batalhas sangrentas e de escassos vencedores, cujo o único galardão que estes porventura vêm a conquistar, muitas vezes, é o sentimento solitário e a certeza estimulante, todavia inquietante, de se estar combatendo o bom combate.

Nesta noite, contudo, posso dizer, como os demais colegas premiados, que conquistei algo mais.

O Prêmio Vivita Cartier, instituído este ano, a exemplo do concurso literário anual, que já está na sua quadragésima sétima edição, vem a resgatar a cidadania e importância de nossos escritores. Pois, como preconizava Platão em sua República, e as democracias e outros regimes de fato o fizeram, os poetas foram há muito banidos, senão objetivamente, subjetivamente, de suas cidadelas. Mas uma sociedade, por mais progressista e economicamente pujante que se queira, como a que se dá em nossa cidade, nada é e nada será se não admitir e estimular, ao lado da força trabalhadora  e do dinamismo empresarial, a criação artística e intelectual de seus cidadãos.

Isso, felizmente, vem ocorrendo. O FINANCIARTE já uma realidade. O Prêmio Vivita Cartier, com o qual tenho a honra e a satisfação de ser premiado essa noite, já é outra. Muito obrigado.

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